30 Anos de Blade Runner

Quem assiste às ficções científicas de hoje em dia tende a pensar que só agora o cinema alcançou toda a tecnologia necessária para fazer grandes aventuras passadas em realidades e tempos distantes de nós. Ledo engano.

Quem pensa nos filmes de ficção científica feitos há mais tempo (e com qualidade) raramente consegue se lembrar de algo além da trilogia clássica de “Guerra nas Estrelas” e dos filmes mais cultuados do Spielberg, como “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” e “E.T”, e por isso acaba deixando passar alguns clássicos dignos de nota, como é o caso do aclamado “Blade Runner” de Ridley Scott, que completa esse ano seu trigésimo aniversário de lançamento.

O filme é considerado um clássico e alcançou status de cult com o passar do tempo, mas não faturou muito nos cinemas, em parte pela concorrência com outros filmes como o já citado “E.T” de Steven Spielberg.

Além dessa concorrência quase desleal o filme também era voltado para outro público devido a sua complexidade conceitual e ao fato de não ser um filme auto-explicativo como era esperado pelo público. Também pudera, o filme é uma adaptação de um romance de Philip K. Dick de título “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (Em português: Androides Sonham com Carneiros Elétricos?), que é igualmente complexo e de difícil leitura. Tanta complexidade e conceitos de difícil apreensão fizeram com que o roteiro fosse adaptado a exaustão.

O filme exibido acabou muito diferente do que o diretor Ridley Scott e os roteiristas Hampton Fancher e David Peoples tinham em mente, contendo até um final feliz muito destoante do resto do filme, que tinha uma atmosfera futurista-decadente-punk-pós-apocalíptica-noir-retrô-depressiva.

A história se passa no século 21, em uma Los Angeles futurista com carros voadores e um amontoado de gente devido a superpopulação mundial. Harrison Ford faz as vezes do detetive Deckard, que tem a missão de perseguir replicantes, algo similar a androides de aparência humana que são designados para cumprir funções, que estão foragidos e infringindo a lei. Isso se deve ao fato deles não quererem morrer, e para alcançar tal objetivo eles devem encontrar o seu criador, tendo para isso que vir para a Terra, local proibido para replicantes.

A premissa pode até parecer banal, mas o pano de fundo muito bem construído nos leva a uma reflexão sobre o que é ser humano, pois os replicantes se parecem conosco, tem sentimentos e memórias como nós, sendo diferentes apenas pelo fato de terem uma data de validade estabelecida, motivo pelo qual acabam se rebelando.

Interessante destacar o papel que alguns replicantes apresentam na trama, como Rachel, interpretada por Sean Young. Ela é a replicante mais próxima do criador, tendo memórias pertencentes a sobrinha do mesmo. Contudo, ela não sabe que é uma replicante, e ao descobrir isso tem uma reação inesperada. Sua fragilidade e seus dilemas e conflitos atraem de forma especial a atenção de Deckard.

Outro replicante de enorme importância na trama, em especial em seu final, é Roy Batty, interpretado por Rutger Hauer, que em uma eletrizante sequência final dá toda a tônica do filme e desvela toda a filosofia por detrás do filme. Ficou famoso por sua cena com o pombo branco sobre os telhados da cidade e pela frase: “I’ve seen things you people wouldn’t believe. […] All those … moments will be lost in time, like tears…in rain.” (Eu vi coisas que vocês não acreditariam […] todos esses… momentos vão se perder no tempo, como lágrimas… na chuva [Tradução Livre])

Além, é claro, de Pris, interpretada por Daryl Hannah, que tem um visual gótico/punk que se tornou referência, além de ter uma das sequências mais interessantes do filme, quando está sendo perseguida por Deckard em uma espécie de fábrica de brinquedos decadente e sinistra.

Isso tudo sem contar Gaff, papel de Edward James Olmos, que não é um replicante, mas age de maneira metódica e discreta, como se fosse uma máquina. Ele deixa pequenos origamis por onde passa e, por ser muito calado e misterioso, se tornou um dos personagens mais interessantes do filme, e suas ações geram interpretações até hoje, tornando-o um ícone na mitologia de Blade Runner.

A questão visual é um ponto forte do filme, não só na maquiagem e caracterização das personagens, mas como um todo. Isso foi responsabilidade do designer Syd Mead, do diretor de arte David Snyder e do responsável pela fotografia, Jordan Cronenweth. Os três construíram toda uma ambientação que é parâmetro e inspiração para muitos outros clássicos sci-fi que surgiram depois. A principal inspiração foi o clássico alemão “Metropolis”, de Fritz Lang, outro filme conhecido pelo seu design exuberante e vanguardista para a época. Hoje em dia é incrível se pensar em um filme de tamanho apelo visual e estético, como é Blade Runner, sem o apoio de grandes efeitos especiais, mas esses caras mostraram ser possível e fizeram um trabalho de extrema qualidade.

Com o passar do tempo o público e a crítica digeriram melhor o filme, passando a reconhecer todo o seu potencial, dando abertura para o lançamento da versão do diretor em 1992, que continha não só cenas inéditas e estendidas como um final completamente novo.   Em 2005 Ridley Scott manifestou que não estava satisfeito com a versão do diretor lançada anos antes, e lançou o director’s final cut, que possuía mais cenas estendidas e quatro finais diferentes, sendo eles o original de 1982, a versão que foi exibida nos cinemas europeus, a versão lançada em 1992 e o, agora sim, final que ele gostaria de ter dado ao filme originalmente.

Há tempos se fala de uma continuação ou um prelúdio para o filme, mas nada foi tão concreto quanto as recentes declarações do próprio Ridley Scott, que já tem uma premissa para o filme, ideias de quem o protagonizará e até uma possível participação de Harrison Ford.

Já se foram cinco anos desde o último lançamento relativo ao clássico Blade Runner, mas agora, em seu aniversário de 30 anos, temos mais novidades a vista.

Já está disponível para pré-venda nos EUA um box comemorativo com quatro discos blu-ray, que além de ter todas as versões já lançadas anteriormente também contará com dez horas (Isso mesmo! 10 HORAS) de extras inéditos, além de vir acompanhado por um livro de 72 páginas com ilustrações do próprio Scott, pôsteres e fotos inéditas das filmagens. Se não bastasse, quem comprar esse box ainda receberá uma miniatura do Spinner, que é o carro voador do filme.

Como dá pra notar o filme é tão bom que, mesmo três décadas depois, ainda consegue surpreender e trazer novidades. Não bastasse o fato de trazer a tona várias questões pertinentes até hoje, ter ótimas atuações, visual exuberante e ideias inovadoras que inspiram até hoje, mesmo após trinta anos o filme ainda tem novidades, o que deve agradar os fãs de longa data e conquistar mais vários admiradores e inspirar-nos por muitas gerações.

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